Entre ir ou ficar: a realidade dos alunos que moram longe de casa

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A adesão do Enem como principal forma de ingresso nas universidades públicas do Brasil fez com que as fronteiras geográficas se reduzissem.  Um aluno, agora, pode se inscrever para a oferta de cursos cada vez mais distantes de sua casa. Porém, sair de sua cidade e estudar longe tem lá seus desafios.

Enquanto para alguns universitários, compartilhar o espaço com pessoas de outros costumes, culturas e personalidades é um modo rápido de adquirir maturidade, para outros, esse processo é um tanto traumatizante. Por isso, o finalzinho do Ensino Médio é um momento decisivo: Fico ou vou?

Muitos alunos optam por abandonar o aconchego da cidade natal junto da família, para aventurar-se, de peito aberto, nas novas experiências de uma cidade que agora será chamada de lar. Em um mundo novo, os forasteiros adquirem mais do que o conhecimento proporcionado pela Universidade, eles vivenciam novos aprendizados em sua vida. Organizar a casa, cozinhar, andar de ônibus, fazer movimentações bancárias, dividir as tarefas, se virar e se virar muito. Sempre há algo novo para aprender ou fazer. Se a rotina de um universitário, com trabalhos e provas, já não é tão simples, junto de tarefas domésticas se torna ainda mais desafiadora.

A aluna do sexto período, Carolina Colombi, veio do Espírito Santo para estudar na UFSJ. Durante a vinda, foram 200 quilômetros de choro e falação sobre como era distante a nova casa da sua cidade natal. Hoje, apesar dos momentos de crise em que pensa “em largar tudo e voltar”, ela não se arrepende da decisão. “Agora, me tornei uma pessoa mais corajosa e capaz de se arriscar. Isso me tirou do mundinho de conforto, onde eu achava que era só estudar, formar e levar uma vidinha mais ou menos na minha cidade. O que eu quero, profissionalmente, mudou muito”, afirma.

Dentre os apertos no coração, a distância, principalmente da família, é o principal desafio de quem optou por partir. “Falta a segurança da minha família. Sei lá, alguém para se preocupar se estou alimentando bem. Quando se mora longe de casa você é muito sozinho”, conta a estudante do segundo período, Rosana Faria.

O preço por sair de casa é alto, mas as recompensas adquiridas através dessa escolha valem a pena. O choque de realidade do universitário que mora fora o introduz numa vida mais madura e autônoma. Sem contar nas oportunidades que poderão ser aproveitadas, pelo simples fato, de se morar na cidade onde está a universidade.

A aluna Clara Fernandes, do quarto período, percebeu bem essa realidade. No princípio da graduação, ela ia e voltava de ônibus de Conselheiro Lafaiete, onde morava, todos os dias. Passado alguns meses, oportunidades surgiram de adquirir novos conhecimentos, além da sala de aula, e só estando na cidade ela conseguiria aproveitá-los. Para Clara, a mudança representou uma nova percepção das suas próprias capacidades “Esse é o momento de ver que sou capaz e de não insistir no medo de sair da zona de conforto, pois o espaço para ele não existe. É descobrir um potencial que não se acreditava ter, seja andar de bicicleta, coordenar uma equipe ou cozinhar carne moída. Você acaba descobrindo o melhor de si”.  

“Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo?”, questionou a colunista Ruth Manus em um dos seus textos. Independente de ir ou ficar, a graduação é um período de aprendizado e maturidade, o qual é preciso ser aproveitado da melhor forma. Ir ou ficar é um detalhe, apenas, dentro dos novos horizontes que a Universidade proporciona.

 

Aluna desenvolve webdocumentário no TCC sobre identidade e conflitos culturais

Tendo destaque a relação das pessoas com o lugar de onde vieram e os conflitos internos enfrentados após a mudança, o Trabalho de Conclusão de Curso da aluna Nicoly Pinto é um webdocumentário sobre essa temática. Foi através de vídeos que falavam sobre o “desligamento”, as diferenças vindas do novo lugar e as características carregadas do antigo, que surgiu, em uma disciplina, a websérie “De onde eu vim?”.

Ligada ao sossego e a natureza do vilarejo onde cresceu, de nome Melhoramentos, e tentando se adaptar a São João del-Rei, Nicoly tira da própria experiência a base para seus trabalhos. Ao continuar na mesma linha de pesquisa proposta na disciplina, no TCC, Nicoly se propõe ao aprofundamento do tema. “Todo mundo sente na pele o impacto de uma cultura muito diferente da sua. Isso modifica hábitos e a forma de ver o mundo, em paralelo com a tentativa de manter firme a identidade e alguns traços mais tradicionais da sua terra”, explica.

Através de conversas, ela seleciona os personagens da sociedade geral para compor a sua narrativa. Contrastes, como “roça versus cidade grande”, estão presentes. Um dos entrevistados é um refugiado do Congo que mora em São Paulo, o qual sofreu grande impacto cultural. Mas nem todos os efeitos são, necessariamente, negativos, já que algumas pessoas vivem melhor onde moram do que na cidade natal.

“Várias pessoas vieram até mim e falaram coisas do tipo “Nossa, realmente, nunca tinha pensado nisso”, o que me deixou bem feliz porque a ideia era justamente despertar essa reflexão acerca de certas atitudes”, diz a aluna sobre o feedback dos vídeos temáticos.

 

Texto: Graziela Silva

Revisão: Julia Benatti

 

 

 

 

 

 

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